A nova secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura Ana Paula Santana fala de suas metas ao O Globo

Nova secretária do Audiovisual propõe metas de eficiência para o cinema brasileiro

O GLOBO -  Publicada em 22/02/2011 às 09h10m

Mauro Ventura

RIO - A brasiliense Ana Paula Santana, de 29 anos, teve uma carreira meteórica. Entrou no Ministério da Cultura (MinC) em abril de 2002, como estagiária na extinta TV Cultura e Arte, e agora é a nova secretária do Audiovisual. Diferentemente dos três últimos antecessores, Orlando Senna, Silvio Da-Rin e Newton Cannito, não tem a experiência prática do cinema.

- Venho do lado público, do Estado, um dos pilares de sustentação do audiovisual no Brasil. Sei fazer tudo na SAv (Secretaria do Audiovisual) porque passei por todas as áreas - diz ela, que foi coordenadora de intercâmbio cultural, chefe de gabinete, assessora internacional e jurídica do secretário e diretora de programas e projetos audiovisuais.

" Quero que minha geração faça o terceiro movimento antropofágico do Brasil "


A nova secretária acredita ser possível uma boa articulação entre a SAv, o Conselho Superior de Cinema e a Ancine (Agência Nacional de Cinema). Ela prefere esperar a oficialização do nome de Vera Zaverucha como diretora da Ancine para falar mais sobre o assunto. Vera acaba de ser convidada pela ministra Ana de Hollanda e aceitou substituir Manoel Rangel. A futura diretora conhece profundamente a estrutura da agência. Foi uma das principais articuladoras do órgão e participou de seu começo, em 2002. Tinha se transferido ano passado para o Sesc Rio, onde trabalhava como consultora para área de cinema e audiovisual. Antes, era superintendente de acompanhamento de mercado da Ancine.

O GLOBO: Quais serão as primeiras ações da sua gestão?

ANA PAULA SANTANA: Assinamos em 2009 uma produção cooperada entre Brasil e Cuba que resultou num filme de animação de 15 minutos,"Caminho das gaivotas", que tem origem em cantigas de ninar dos dois países. Montou-se uma equipe de Cuba e do Brasil, trabalhou-se pela internet, tivemos imersões aqui e lá. Pois essa produção vai resultar agora na política de formação e incentivo de coletivos criativos e na política de animação.

Detalhe essas duas políticas.

O primeiro programa que quero lançar é o do coletivo criativo. Vou selecionar coletivos já existentes e potencializá-los. Falar: "Apresente-me um plano estratégico, diga-me qual a sua política de empreendedorismo, crie uma marca, que o governo vai investir X." Em vez de chamar o cara da trilha no fim do filme, bote o músico junto com o cineasta, o animador com o artista plástico, o estilista junto com alguém de teatro. Todo mundo junto para pensar coletivamente um produto. Minha ideia é ir além: montar um coletivo, selecionando indivíduos para ficar em imersão numa residência. Filmar isso 24 horas e talvez virar reality show. Mostrar na internet e aprimorar o coletivo a partir da intervenção de quem está vendo.

E a política da animação?

O talento brasileiro para animação é único no mundo, mas, hoje, se eu tivesse R$ 10 milhões para investir, investiria na formação de mão de obra, em que temos uma grande deficiência, e não na produção. Tenho um projeto, que está sendo finalizado, de criar a primeira escola técnica de animação, que ofereça teoria, dê capacidade produtiva e tenha prática.

Que problemas você identifica no audiovisual brasileiro?

Tem uma lacuna na cadeia produtiva brasileira que é a do desenvolvimento do processo criativo. Afinal, o processo é muito mais importante que o produto final. Se o processo é ruim, o produto final é ruim. Mas hoje as leis de incentivo pedem o roteiro pronto. Não quero roteiro pronto, quero a proposta. O cara dizer: "Vou investir X do orçamento no desenvolvimento do projeto, Y na produção, Z na distribuição. Meu produto tem possibilidades de cinema, TV e plataformas digitais." Quero que ele me apresente um plano de negócios, um plano estratégico de produção, uma análise de oportunidade, quais os parceiros. O risco na atividade cinematográfica sempre foi um fator desconsiderado, porque ela sempre foi sustentada e apoiada pelo dinheiro público.

Dê um exemplo de sair do produto para o processo criativo.

O FICTV, que está sendo finalizado. É a produção, em dois anos, de três séries de TV para o público de 16 a 29 anos das classes C, D e E. Não foi uma mera entrega de dinheiro do poder público a uma produtora. Tivemos seminários, preparação de elenco, noção de planejamento de produção, acompanhamento de consultores desde o desenvolvimento do roteiro. Vamos entregar para a TV Brasil programas de ponta.

Em que isso vai melhorar a cadeia produtiva brasileira?

Prefiro cinco longas de baixo orçamento que tenham qualidade, com um processo que abarque muito mais gente e chegue ao público, do que 20 só para satisfazer a produção. Quero ter perenidade das ações. Que seja um voo Brasil-Tóquio, e não uma ponte-aérea Rio-SP. Que a atividade audiovisual seja considerada lucrativa e rentável para quem quer investir, como os outros segmentos da indústria no Brasil.

Não tem o risco de soar como interferência no trabalho do cineasta?

Daremos bases de aprimoramento. A questão autoral é dele. Não vai ter consultor dizendo: "Mude seu roteiro." Mas ele pode ouvir conselhos. Pretendo que o cineasta mostre para o Estado como ele pensa seu processo. A produção brasileira não considera um fator determinante, que é o gosto do consumidor. Não estou condenando os filmes autorais, estou querendo que a produção se desenvolva no sentido de achar o público para sua obra. Certos produtores autorais não têm noção do público para o qual estão produzindo. Quero que o cinema autoral dê feedback para o Estado: "Olha, o público que quero atingir é esse, que se interessa por essa estética e essa linguagem." Na minha gestão, vai ter espaço para a experimentação, para o autoral e o comercial, mas vai ter cinema buscando eficiência para dar retorno e contrapartida ao público final, que é quem paga a conta. O espectador paga para aquilo que desperta desejo, pode ser uma comédia romântica, um besteirol americano ou um filme supercabeça.

Você é a mais nova secretária a ocupar a SAv. Como sua juventude pode pesar a favor da secretaria?

Quero trazer o Ministério da Educação para vários projetos. Ano passado até riram de mim quando falei que a gente está desconsiderando um público tremendo para o cinema brasileiro. No Enem tem bibliografia obrigatória, vamos propor para o MEC uma filmografia brasileira que contemple a diversidade cultural do país. Quero que a ministra leve a proposta para o ministro Fernando Haddad. Minha geração se afastou da cultura brasileira. Ela não conheceu nenhum movimento significativo de pensar e refletir em termos de identidade. Quero que minha geração faça o terceiro movimento antropofágico do Brasil, que culmine em 2012, 90 anos depois da Semana de Arte Moderna. 


Informações sobre a nova secretária do Audiovisual do MinC

Foi nomeada, nesta quarta-feira (2), a nova secretária do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAv/MinC), Ana Paula Santana, escolhida recentemente pela ministra Ana de Hollanda. Além de a mais jovem da equipe, Ana Paula é a primeira mulher a assumir o cargo antes ocupado pelo roteirista Newton Cannito. A nomeação foi publicada no Diário Oficial da União de hoje.

“Considero o convite da ministra Ana de Hollanda, antes de tudo, uma decisão corajosa, que me motiva a trabalhar cada dia mais para o meu país.”

Carreira

Ana Paula foi assessora na extinta TV Cultura e Arte e ingressou no Ministério da Cultura como estagiária, em 2002. Há nove anos dedica-se exclusivamente ao setor audiovisual. Na SAv, dentre outras funções, foi coordenadora de intercâmbio cultural, assessora internacional e jurídica do secretário, gerente de fomento às atividades audiovisuais, chefe de gabinete da SAv, de 2007 a 2010, secretária do Audiovisual substituta e, até antes do convite da ministra, diretora de Programas e Projetos Audiovisuais.

Sobre a sua experiência na SAv, Ana Paula relata que foi muito privilegiada em ter convivido com os secretários anteriores: “Aprendi muito com José Álvaro Moisés, que me deu a oportunidade de trabalhar com Lisiane Taquary, que teve a sensibilidade de evidenciar e investir no meu trabalho; com a confiança e sabedoria de Orlando Senna; com a ética, respeito ao trabalho público e com a trajetória de construção institucional do audiovisual brasileiro de Silvio Da-Rin; com a criatividade e o poder de inovação de Newton Cannito”.

Propostas

A nova secretária assegurou que continuará com o trabalho que a Secretaria do Audiovisual desenvolveu nos últimos anos e pretende avançar muito. Avançar no poder criativo do indivíduo, no papel indutor do Estado em criar mecanismo de sustentabilidade das ações e processos, e pretende contar com apoio do setor para a construção conjunta de políticas para o audiovisual brasileiro e para aumentar a sua presença no cenário internacional.

A secretária Ana Paula também pretende reforçar a competência de formulação de políticas na Secretaria do Audiovisual, tendo em vista que este setor tem papel estratégico na política do Estado brasileiro.

“Não podemos nos esquecer, em nenhum momento, que o Audiovisual, desde a preservação da memória e dos acervos até os mecanismos de distribuição e difusão, compreende um elo de ações importantes, que merecem olhar apurado e ações e políticas efetivas. O Audiovisual é uma das molas propulsoras à Economia Criativa, economia de serviços, dos coletivos criativos, onde ideias, conceitos, processos e inovação são ativos que agregam os valores que o público consumidor deseja e escolhe”, afirma.

Revolução criativa

A nova secretária afirma não gostar de trabalhar com marca de gestões, mas quer deixar um legado de construção à identidade cultural de sua geração.

“A minha geração, infelizmente, se perdeu da cultura brasileira. Agora eu tenho a oportunidade de tentar reparar essa perda, trabalhando em conjunto com os mestres e com os jovens, estimulando o aprendizado que se tem com a troca de experiências, valorizando o que o nosso país tem a nos dar. Acho que minha geração pode fazer uma revolução criativa”.

(Texto: Assessoria de Comunicação SAv/MinC)


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